segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ameaças à Democracia

CARLOS ALBERTO DI FRANCO

Em 1964, sob o pretexto de preservar a democracia ameaçada por um presidente da República manipulado pelo radicalismo das esquerdas, os militares tomaram o poder. E o que se anunciava como intervenção transitória se transformou no pesadelo da ditadura. A imprensa foi amordaçada. Lideranças foram suprimidas. Injustiças foram cometidas em nome da democracia.

O que se viu no transe da ditadura foi o germinar de duas tendências: liberdade versus autoritarismo. Os democratas, como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, entre outros, partiram para a luta contra a ditadura, mas sempre apontando para o horizonte de um regime aberto. Outros, como Dilma Roussef e Franklins Martins, partiram para a clandestinidade. Passaram-se anos. A guerrilha foi substituída pelos ensinamentos de Gramsci, pelo marketing e pela manipulação das massas desvalidas. Mas a alma continua autoritária.

Em discurso, ao lado do presidente Lula, o ministro Franklin Martins criticou a imprensa e disse que os jornais e emissoras de TV vão perder o controle sobre as notícias. Eles participaram do lançamento da TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Franklin disse que o canal ajudará a internet a quebrar o poder dos "aquários", jargão que identifica a chefia das redações. "Isso é uma revolução e incomoda muita gente que ficava no Olimpo. Mas é irreversível e está apenas começando." O inimigo: a imprensa independente. A mesma que se opõe e, se oporá sempre, aos novos ímpetos autoritários que se vislumbram no horizonte pós-eleitoral.

O projeto de controle das comunicações e das liberdades não é uma possibilidade. É uma estratégia em implantação. O respeitado Ethevaldo Siqueira, de "O Estado de São Paulo", fez uma radiografia: "O PT não quer simplesmente continuar, mas se prepara para aprofundar o aparelhamento do Estado na área das Comunicações. Ao longo de quase oito anos, o partido ocupou quase todos os espaços de poder na área", diz Siqueira. O governo Lula esvaziou as agências reguladoras, concentrou esforços na formulação do Plano Nacional de Banda Larga e na recriação da Telebrás. "Criou a EBC (TV Brasil), e passou a cuidar quase secretamente da questão da banda larga e da Telebrás." A estratégia petista consiste em aprofundar o aparelhamento e a ocupação total do território estatal das comunicações, conclui.

É sombrio o horizonte da democracia. Agora, com a economia turbinada, tudo é festa e a capacidade crítica se esvai. Mas um país com imprensa ameaçada, oposição esfacelada, instituições aparelhadas, comunicação controlada e sob o efeito de um crescente populismo assistencialista é tudo, menos democracia. Cabe-nos resistir, com as armas do profissionalismo, da ética inegociável e da defesa da liberdade. A democracia pode cambalear, mas sempre prevalece.
(artigo no jornal O Globo, em 6/9/2010)

imagem do blog do Zé Oliveira

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