sábado, 30 de outubro de 2010

Brasil aprova a ficha suja

artigo do escritor Guilherme Fiúza

"Seja qual for o resultado das eleições presidenciais, 2010 ficará marcado como o ano do movimento cívico que aprovou a ficha suja na política brasileira.

A opinião pública, distraída como sempre, está eufórica com a Lei da Ficha Limpa - que barra candidatos com maus antecedentes, como o lendário Jader Barbalho. Sem querer estragar a festa, é preciso dar a má notícia: Jader, Roriz e companhia são gotas no oceano diante dos métodos políticos que estão sendo aprovados, ao mesmo tempo, pela mesma opinião pública, na campanha presidencial.

A imprensa fez a sua parte. Mostrou, de forma quase didática, o jeito Dilma de governar. Não se trata de uma denúncia aqui, ou um escândalo ali. Trata-se de uma cultura. O que o Brasil viu - ou deveria ter visto - acontecer na Casa Civil ou na Receita Federal não foi uma coleção de deslizes. Foi um método de ação, um plano de governo. Sucessora de José Dirceu, Dilma Rousseff trouxe Erenice Guerra. Investiu tudo nela e promoveu sua ascensão meteórica de funcionária obscura a ministra mais importante da República.

A eficiência de Erenice é incontestável. Montou uma rede de tráfico de influência no ministério em menos de 6 meses. Pode-se imaginar o que faria em 4 anos, como principal ministra de Dilma.

Ao fundo, a espionagem na Receita a serviço do comitê da candidata do PT - mesma Receita que já havia sido fustigada por Dilma, segundo a ex-secretária Lina Vieira, para aliviar um processo do filho do Sarney. O Estado é deles. Se não fosse, qual seria a graça de pegar o poder?

As agências reguladoras, criadas justamente para despolitizar o Estado - quem foi o louco que inventou isso? - foram retomadas pela sanha partidária. E devidamente desmoralizadas. O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), importante referência na análise conjuntural, foi convertido em propagador de ideologia petista. Os Correios, pilar da unificação continental brasileira, mudaram de prioridade: antes da entrega de cartas, a entrega de cargos. Ali também chegou um dos tentáculos de Erenice, a fiel escudeira de Dilma e do PT.

Diante dessa colonização da máquina pública, chega a ser comovente o grito genérico do povo contra as privatizações. O brasileiro teme a alienação do patrimônio estatal. Não toquem nos nossos parasitas.

Lula tem toda a razão quando diz que não se pode reclamar de falta de liberdade de imprensa em seu governo. De fato, a imprensa mostrou a farra toda. E mostrou fartamente quem é, ou melhor, quem não é Dilma Rousseff, além de uma testa de ferro desse projeto de sucção partidária do Estado. Não viu quem não quis. E a massa de votos apontados para a madrinha de Erenice, outdoor do assalto "progressista" à coisa pública, não deixa dúvidas: a ficha suja é um sucesso no Brasil.

A miopia é mesmo um grande tranquilizador de consciência. O eleitor de Dilma ainda se sente à vontade para patrulhar os outros. Afinal, Dilma é Lula, e Lula é o pai dos pobres. No Rio de Janeiro, capital nacional da esquerda festiva, já brota uma certa hostilidade moral contra os que não apoiam "a presidenta". O politicamente correto continua sendo o melhor disfarce para o intelectualmente estúpido.

Esse Brasil supostamente solidário - ficha suja e cara limpa - ama Lula pelo motivo errado. O governo que se encerra foi positivo em um aspecto crucial: garantiu a estabilidade política, com as instituições funcionando normalmente, artigo raro numa República que marcha aos trancos e barrancos. Isso se deveu em grande medida à ampla representatividade de Lula, e à sua habilidade pessoal. Esta foi a base da manutenção da estabilidade econômica - e do progresso social advindo dela - que o Brasil resolveu acreditar ser obra do governo bonzinho de um presidente pobre.

E onda brota a mistificação, como se sabe, a ignorância e a má fé se confundem. A comparação de indicadores econômicos do último ano de Fernando Henrique com números atuais não é honesta. Circula na internet um comentário do jornalista Joelmir Beting comparando PIB, juros, inflação, etc, de 2002 e 2010, como argumento para a aposta em Dilma. Uma fraude.

O governo anterior tirou a economia brasileira do pântano. Controlou a inflação, apesar da oposição do PT. Mesmo abalroado pelas duas maiores crises financeiras dos últimos 20 anos (dos Tigres Asiáticos e da Rússia), deixou as bases institucionais para o crescimento. Os indicadores de 2002 refletiam essa conjuntura de transição, além do risco Lula - que só desapareceu quando ele comprometeu-se com a política econômica de FH.

Em sua campanha, Dilma apropriou-se do feito de Pedro Malan, da foto de Norma Benguell e da assinatura de Ruth Rocha, entre outras licenças poéticas. Mas o que é genuinamente seu, até o momento, é o legado de Erenice. Cada um com a sua ficha."
(artigo de Guilherme Fiúza no Globo de 30/10/2020)
ilustração do blog Xingu Vivo para Sempre

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bento XVI Fala aos Bispos Brasileiros


O Papa Bento XVI recebeu nesta manhã em audiência no Vaticano o grupo de bispos do Regional Nordeste 5 da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Leia abaixo a íntegra do discurso de Bento XVI:
"Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o "Compêndio da Doutrina Social da Igreja"» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica."

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Herança Bendita de FHC


Ontem, minha afilhada me escreveu solicitando uma avaliação do governo de Fernando Henrique Cardoso. Como outros jovens, ela era um bebê durante o período da inflação galopante e não esteve consciente do sucesso do Plano Real. Não puderam constatar a competência e dignidade de Pedro Malan na gestão de nossa economia. Gosto de lembrar também a atuação de Paulo Renato no Ministério da Educação e a coragem de Serra ao enfrentar os grandes laboratórios e tornar realidade os medicamentos genéricos. Respondi por e-mail à querida Isabella, mas aqui respondo aos outros adolescentes que já me fizeram pergunta idêntica.

Como estou preguiçosa nesse pós-feriado, valho-me do que escreveu hoje o antropólogo Roberto DaMatta (Globo, 13/10/10), de uma maneira que me pareceu justa com os fatos e mais eficaz do que minha memória. "(...) FHC, cujo governo promoveu a entrada do Brasil neste mundo indigno de competição, mercado, telefonia para todos, internet, venda de bancos estatais podres, crédito farto porque a moeda é - depois de décadas - estável e forte, disciplina fiscal, reformulação da previdência, bolsas para os carentes e, acima de tudo, um governo no qual o presidente tinha noção de limites. Sabia o significado profundo do cargo que ocupava e o honrava com todas as letras. Procurava, mesmo na esfera escorregadia da política, manter distância, embora fosse alvo de agressões incivilizadas da oposição petista."

O próprio Lula reconheceu, sinceramente agradecido, a isenção e compostura de Fernando Henrique durante a campanha eleitoral de 2002.

Para 2011, desejo que o (a) presidente do Brasil tenha noção de seus limites, que respeite as crenças do povo brasileiro, protegendo a vida humana desde o momento da concepção, já que a sobrevivência dos animais tem adeptos fervorosos. De quebra, aviso ao meu candidato: detesto irresponsabilidade fiscal, voto em lista e CPMF.

Em resumo, meus caros jovens, desconfiem da isenção de quem não reconhece a herança bendita de FH. No íntimo, Lula reconhece.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Marina Silva brilhou!


Marina Silva deu uma arrancada final e sensibilizou os que acreditam que a política deve ser uma atividade exercida para o bem do povo e não para lucro dos partidos e amigos dos eleitos. Seu discurso sincero chegou aos jovens e aos que defendem a dignidade da pessoa humana, da concepção até o fim natural da vida. No Rio de Janeiro recebeu 31, 52% dos votos válidos e no Distrito Federal foi a mais votada, com 41,96%. Isso me faz sorrir!

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